A Centauro, varejista líder em artigos esportivos, abriu capital nesta terça-feira com uma espada sobre a cabeça. O quão diferente será o desempenho de seu grupo controlador, o SBF, na comparação com sua principal concorrente, a Netshoes, protagonista de um dos IPOs mais mal sucedidos dos últimos tempos? 

Embora seja possível encontrar tênis de corrida e apetrechos para boxe nas duas varejistas, elas são diferentes, segundo analistas ouvidos por EXAME. A Centauro tem duas vantagens em relação à concorrente: 192 lojas físicas e uma operação lucrativa desde 2017.

A Centauro captou 772,2 milhões de reais em sua abertura de capital, realizada nesta segunda-feira, 16. A empresa é controlada pelo fundador, Sebastião Vicente Bomfim Filho, que ficou com 46,4% de participação depois do IPO, e pelo fundo de private equity GP Investimentos, que terá 26% da empresa. O capital levantado com o IPO deve ser usado para pagar alguns débitos restantes, melhorar a operação digital da rede e expandir.

A seu favor, a Centauro tem também o momento econômico do país. Apesar dos quase 13 milhões de desempregados, a expectativa é que o cenário melhore daqui para frente — ou, pelo menos, há a sensação de que o pior passou, o que pode ser fundamental para os investidores. “Acreditamos que o desemprego vai cair. Com isso, o consumo deve aumentar, e isso vai beneficiar o varejo”, afirma Josian Teixeira, gestor da Lifetime Asset Management.

O timing é uma vantagem da Centauro em relação à Netshoes, companhia também focada no setor esportivo e que despencou desde o IPO na Bolsa de Valores de Nova York, em abril de 2017. A lógica era buscar investidores mais acostumados às agruras do varejo online, e dispostos a apostar no Brasil. Mas ninguém esperava tanta agrura.

De lá para cá, a crise econômica no Brasil se acentuou, prejudicando o consumo, e a Netshoes emendou uma sucessão de barbeiragens. A Netshoes parou de crescer e não conseguiu reduzir os prejuízos. Foi forçada ainda a desembarcar de mercados apresentados como relevantes para o futuro, como o México e a Argentina. A operação mexicana foi vendida em 2018 para o fundo Sierra Capital e a subsidiária da Argentina, segundo EXAME apurou, foi negociada com a varejista local Dexter. A Netshoes não comentou a informação. 

O papel da varejista chegou a valer 24 dólares em maio de 2017 – hoje está cotado a 2,30 dólares.  “O volume de vendas foi muito menor do que eles esperavam. Houve uma frustração em relação ao crescimento”, avalia Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos. 

Com uma operação puramente online, a Netshoes opera no negativo há anos. A solução pode vir de um comprador. Magazine Luiza e B2W estão entre os interessados na aquisição, apesar de as companhias não confirmarem a informação. 

A Centauro também sofreu durante a crise econômica, com prejuízos nos anos de 2015 e 2016. No entanto, arrumou a casa, renegociou dívidas, fechou lojas e investiu na operação online. “A Centauro vem de histórico de prejuízos constantes, passou por uma crise financeira em 2015 e depois disso buscou evoluir no mundo digital. Conseguiu melhorar seus resultados e foi beneficiada em 2018 com a Copa do Mundo. A partir daí começou a ter lucro. Ela chega à bolsa relativamente zerada em dívidas”, afirma Teixeira.

Um dos desafios da Centauro agora é fazer com que sua operação online ganhe força e nesse ponto a Netshoes, que está à venda, pode ser um problema. “Quem comprar a Netshoes pode dar um passo à frente no setor de esportivos na internet, mas a Centauro vai ter caixa para se adaptar”, avalia Teixeira.

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Ainda que seja natural comparar Netshoes e Centauro, há muito espaço para as duas no mercado. O mercado de artigos esportivos faturou 33,2 bilhões de reais no ano passado, com crescimento acima do varejo físico em geral. O segmento ainda é muito pulverizado. A Centauro, maior do setor, domina 5,4% do mercado, enquanto a Netshoes tem 4,6%, enquanto a Decatlhon tem 2,7% de participação. Dessa forma, a Centauro tem uma grande oportunidade para se consolidar nesse setor, diz relatório da corretora Eleven.

Além da pulverização do setor, Netshoes e Centauro não concorrem diretamente por conta da diferença entre suas operações. A Netshoes é totalmente digital e cerca de 16% das vendas da Centauro são feitas pela internet.

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Futuro no multicanal

As lojas da Centauro são o seu grande diferencial. Cada loja tem entre 10 e 20 mil produtos à venda, com itens para ciclismo, handebol e atividades radicais em um mesmo lugar. No marketplace, há 67 mil itens de  mais de 300 vendedores diferentes.

No entanto, para expor todos esses itens, as lojas precisam ser grandes. Em média, são mais de mil metros quadrados, o que envolve altos custos de manutenção e reforma.

Um dos destaques é a nova geração das lojas, chamada de G5, que oferece ao consumidor a possibilidade de experimentar e personalizar os itens. Há transmissão de jogos, aulas e palestras para atrair consumidores. As lojas são equipadas com sensores de calor e de movimentação para saber exatamente o que os consumidores procuram. Já são 16 unidades no novo modelo.

A empresa também empreendeu uma transformação digital em 2015. Hoje, todas as lojas funcionam como mini centros de distribuição para o meio online. Os envios diretamente da loja representam 18% das vendas do digital, enquanto o clique e retire é responsável por 26% das entregas.

Embora as lojas grandes sejam o grande segredo da companhia, também representam um risco para sua operação. As unidades estão principalmente em shopping centers. A companhia está presente em 42% dos shoppings do país – em alguns estados, a participação é de 100%.

Com a participação cada vez maior do comércio eletrônico nas vendas, a abertura de novos centros de compra deve desacelerar nos próximos anos. Assim, esse modelo único de lojas da Centauro pode provocar restrição no crescimento da companhia, afirma o relatório da Eleven.

Outro risco é a dependência de um número pequeno de fabricantes fornecedores é bem menor. A companhia depende basicamente de grandes marcas como Nike e Adidas. Entre os itens voltados ao futebol, as duas marcas respondem por 71% das vendas, de acordo com o relatório.

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Uma boa notícia pode estar numa feliz coincidência: o IPO veio semanas antes do início da Copa América, que será disputada no Brasil. Se a seleção empolgar, a venda de artigos esportivos pode ganhar um bom impulso. 

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Fonte: Exame Abril

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